domingo, 22 de janeiro de 2012

Uma Viagem com a Nau do Théâtre Du Soleil

                                                                                                Foto: Charles Kray
                
              Nada mais oportuno para abertura do blog Ensaio Aberto que relatar a experiência de um dos grandes e últimos espetáculos que passaram pelo estado no ano de 2011. No dia onze de dezembro do ano passado, tivemos a oportunidade de assistir a derradeira apresentação do espetáculo “Os Náufragos da Louca Esperança” da Companhia Théâtre Du Soleil. O grupo ancorou sua nau em Canoas com um único objetivo: resgatar-nos deste mar de ignorância. Desembarcaram quarenta atores e sua capitã Ariane Mnouchkine. Talvez sejam os últimos navegadores esperançosos deste século que buscam, com sua mensagem, a esperança de um mundo novo, de terras firmes onde o ser humano, possa enfim, descansar da jornada em mares revoltos que a humanidade se lançou. Técnica, poesia, lirismo e potência são algumas palavras que podem expressar a totalidade do espetáculo. Simples e ao mesmo tempo complexo, são detalhes que criam este paradoxo característico das grandes produções.  Simples, pois fala direto ao coração. Complexo, pois exige envolvimento de todas as partes que constituem a produção: o espetáculo e o público.

                De extrema coragem, a diretora apostou num espetáculo de quatro horas, e não apostou somente na competência de seus atores, na sua direção, mas acreditou mais uma vez no ser humano. Acreditou que é possível subverter as regras que se estabelecem neste mundo contemporâneo, onde a fruição deve ser instantânea. Fruir de forma atenta, com paciência, ser absorvido e absorver, não são palavras em voga no mundo atual, de tempo escasso, de informações que circulam numa velocidade jamais vista. Esta postura da diretora nos mostra mais uma vez sua potência como ser humano e sem dúvida, é uma provocadora. Continua sua luta contra a “... época de uma crueldade esquecida na Europa de hoje, quando reinava no país uma covardia contagiosa e devastadora,...”, conforme afirma no programa do espetáculo. Esta covardia não é um problema somente do seu país. Também sofremos desta covardia, desta falta de coragem, por isso que na maioria das vezes o poder público e privado, a mídia e os espectadores não apostam em espetáculos que fujam às regras impostas ao setor de cultura e divertimento. Sim! Cultura pode divertir, mas é essencialmente reflexão. Podemos nos divertir e refletir, pois entre gargalhadas, surpresas e fascínio, o espetáculo tem como principal objetivo: a reflexão. Refletir sobre a nossa condição social, sobre os nossos valores e como nos organizamos em sociedade. Eis a ironia! Eis a essência da verdadeira arte!

                Talvez a diretora e seus atores sejam o último bastião que mantém viva a tradição das produções cênicas e dramatúrgicas do inicio do séc. XX.  Época em que se reuniram os grandes nomes da cena teatral, filosófica e política da história humana. As produções vinham impregnadas de questões que envolviam diretamente o homem, acima de tudo, como responsável pelos rumos que tomavam a sociedade.  A mesma que hoje parece ser autônoma, como se economia e política decidissem seus rumos e resta a nós acatá-los. Estamos apartados destas questões por falta de responsabilidade e envolvimento.  Envolvimento requer participação e esforço. Talvez não queiramos esforço, não queiramos ficar por quatro horas assistindo um espetáculo que nos coloque diante de nossas questões. Esquecemos que a arte é ferramenta de transformação.  Os artistas de hoje em dia esqueceram que arte requer engajamento. Não simplesmente este engajamento político dos últimos tempos, puramente partidário, e sim, o engajamento social e transformador. Este não se corrompe à máquina estatal, não produz visando o lucro, não acaba em si. Por isso nomes como Berthold Brecht, Dario Fo e tantos outros de uma mesma época continuam vivos, mesmo que esquecidos, ainda assim, continuarão como referência para aqueles artistas que acreditam no verdadeiro poder de transformação do teatro.

                A nossa cena teatral vive uma crise jamais vista. As produções se resumem a caça níqueis ou projetos feitos a toque de caixa para que possam cumprir o calendário das leis de incentivo à cultura.  O tempo para pesquisa cede espaço à produção de projetos que seguem normas de mercado. Estas normas nem sempre estão escancaradas, pois a burocracia coloca exigências que extrapolam a pesquisa, cria parâmetros e prazos que aos poucos desestimulam a verdadeira criação, seu espaço e seu tempo. Não é à toa que encontramos tantas produções de Stand Up Comedy ou produções que mais parecem uma colcha de retalhos com várias performances que não se ligam ao final. Espetáculos como estes não trazem nenhum tipo de reflexão, mas contam com apoio da mídia e do público.  Fazer sucesso é o que importa. Na realidade, são espelhos de nossa sociedade consumista e sem critérios. Usa-se e joga-se fora. A nossa cena teatral está ao sabor dos ventos capitalistas, a autonomia de mercado, à auto-regulação.

                Talvez muitos foram ao Espetáculo “Os Náufragos da Louca Esperança” para depois saírem por aí contando a todos o seu privilégio e a exclusividade única de assistir a tal produção. Vivemos também a boçalidade desta “elite cultural” que tenta usufruir do capital simbólico, como advertira Pierre Bordieu, para depois usá-lo como moeda de trocas em rodinhas bem animadas dos “diferenciados”. Com certeza não são estes os objetivos desta geração de diretores e dramaturgos dos começos do século passado. Os objetivos são maiores, mais profundos, mais complexos. Eles atingem o ser humano na sua parte mais desnuda, lhes retiram a carapaça, lhes desmontam a postura de elite cultural e falam para todos num mesmo nível de possibilidades. É uma pena que este mesmo espetáculo não brindou a nossa sociedade de excluídos, talvez o único erro da produção, pois seria lá, a maior produção de sentidos.

                Não falamos do espetáculo, como se inicia e nem como termina, mas falamos de sua potência pedagógica, do seu envolvimento, da forma com que os atores se envolvem durante quatro horas de cena. Falamos da coragem da diretora, nos temas que se entrecruzam e criam as condições necessárias para uma verdadeira experiência estética. Estávamos náufragos, nos afogando neste mar de banalidades do mundo contemporâneo até o momento que fomos resgatados por esta “Nau da Louca Esperança” que nos deixaram em “Canoas” para que sigamos resgatando outros que se afogam em Shoppings, em lojas, contemplando a vasta produção de sentido em coisas sem sentido.  Podemos respirar novamente e olhar para nós mesmos, enxergando nossas possibilidades reflexivas, encontrar em nós as nossas diferenças. Encontrar a nossa humanidade!
                                                                                              Foto: Charles Kray
"Camarim Aberto": Os atores se preparam para o espetáculo em tendas na entrada do teatro para serem vistos pelo público.
                                                                                                Foto: Charles Kray
 O Espetáculo

              A trama, que acontece no pré-guerra, envolve um diretor e seu grupo de atores que estão produzindo um novo tipo de arte devido a uma nova descoberta:  o Cinematógrafo. O desenrolar dos acontecimentos que poderiam desencadear a primeira guerra mundial se confundem com a própria montagem do filme. A descoberta do cinematógrafo, movido a manivela, é o ponto de partida para utilização de trucagens para obtenção de alguns efeitos de fotografia. No entanto, estas trucagens, que no filme seriam escondidas, na peça são expostas e mostram toda a criatividade inventiva que envolvia a produção do cinema mudo. Todas as cenas filmadas são traduzidas em texto, por ser filme mudo, e as cenas de bastidores são faladas e também traduzidas por questões de idioma.
                As dimensões do palco e seu formato é reprodução do local onde o Théâtre Du Soleil  ensaia. As cenas são abertas e acontecem várias ações durante a filmagem, porém, os recortes e o foco obedecem aos princípios do cinema. Nossa atenção é guiada mediante a iluminação e princípios de foco, muito utilizado no teatro, que mesclados com a manipulação de luz são recursos para capturar o nosso olhar. Os bastidores, muitas vezes estão em meia luz, mas isto não impede que percebamos as trucagens que acontecem fora do foco principal. Neste momento podemos perceber que acontece uma extensão da cena, fazendo com que ela ganhe potência, todos os truques expostos não perdem sua magia, como poderíamos supor, mas ganham em comicidade, se revelam em criatividade.
                A história contada no filme é de um grupo de intelectuais que procuram colocar em prática suas teorias de socialismo e encontram a possibilidade de instalar um novo país numa ilha recém descoberta no oceano pacífico, perto do Chile. Para tanto, embarcam num navio e levam consigo as esperanças de um novo mundo e por isso o nome do espetáculo “Os Náufragos da Louca Esperança”. Durante a filmagem do enredo acontecem muitas discussões acerca das teorias que serão abordadas no filme. Nestas discussões se envolvem os atores, diretores e dono do restaurante que sede o sótão para filmagem. São abordadas com emoção, com paixão e mostram o envolvimento, além da filmagem, sobre questões sociais importantes que envolvem todo elenco. Estas questões são abordagens de pensadores daquela época e que sonhavam uma sociedade mais justa e igualitária. Mas como ser justo e igualitário frente aos nossos instintos?
                Voltando ao roteiro do filme, embarcam rumo a esta nova terra vários arquétipos de nossa sociedade e, todos os conflitos, internos para nós simples mortais, são exteriorizados mediante estes personagens que figuram como projeções do nosso interior e criam o conflito que deflagra a magia do teatro e seu poder de reflexão. É na construção deste novo mundo, mediante cenas épicas em meio à neve e ao mar, que os sonhos aos poucos se desconstroem, mas nos deixam uma grande lição: refletir, sobretudo refletir. Refletir sobre a nossa existência egoísta, sobre o poder do dinheiro, do ouro, sobre nossas fraquezas e sobre nossa ingenuidade. A esta altura do espetáculo poderíamos estar desiludidos, mas ao seu final, sugerindo que a reflexão é parte da existência, nos deixa uma lição: que a esperança deve continuar sua viagem no mar revolto da existência, mas para que esta tenha sentido, pois não há esperança sem ilusão, sem desilusão, precisamos continuar a luta por um novo mundo.